As sociedades celtas da Britânia

by Felipe Pan
Sunday 03 March 2019

Série: Grã-Bretanha Celta

Druidas, nobres guerreiros, artesãos e amazonas; sob os mais diversos prismas, diversos elementos do legado histórico e artístico dos celtas continuam a encantar o imaginário popular britânico e brasileiro graças aos seus mistérios, magia e beleza, seja através da literatura, da música ou do cinema. Pensando nisso, o portal VisitBritain inicia aqui uma seção dedicada às curiosidades e lugares que ilustram, de alguma forma, a herança dos povos nativos da Grã-Bretanha para todos aqueles que desejam saber mais sobre o passado da ilha.

Seu guia nesta jornada, Felipe R. Pan, é um estudioso de culturas celtas e mitologia arturiana, além de autor do romance Alec Dini e o Vórtice do Tempo, primeiro volume de uma saga de fantasia infantojuvenil baseada em história e mitos celtas e arturianos da Grã-Bretanha.

As sociedades celtas da Britânia

Até que novos documentos provem o contrário, a visão mais comum entre pesquisadores é de que as sociedades celtas da Grã-Bretanha antiga, chamada pelos romanos de Britannia (Britânia), organizavam-se em tribos regionais com líderes diferentes e organizações independentes, apesar das afinidades linguísticas e culturais que carregavam entre si. Tal fato pode ser observado no modo como os romanos aliavam-se a algumas tribos enquanto confrontavam outras, ilustrando a falta de uma organização unificada que agisse como resistência. Através de manuscritos milenares, temos acesso hoje aos nomes de muitos desses grupos celtas e a região uma vez habitada por eles, compondo um legado breto-romano que pode ser visto até hoje em muitos lugares diferentes.

Conheça agora as principais sociedades do mundo celta da antiguidade antes e durante a ocupação romana, assim como as belezas naturais e construções antigas que unem esses povos antigos a nós, formando um passeio perfeito para contemplação e aprendizado. Por convenção, os nomes das tribos foram mantidos em latim.

País de Gales

Silures

Considerados por muitos como uma das sociedades celtas mais proeminentes do oeste da Britânia, os Silures habitavam a região sul do que hoje é o País de Gales, na boca do Rio Severn. Seus territórios incluíam a região atual de Cardiff, Swansea e Newport, fazendo das montanhas de Brecon Beacons sua fronteira ao norte e frequente local de refúgio diante das batalhas contra as forças romanas. Caminhar pela região montanhosa de Brecon Beacons é um experiência única, com vistas de tirar o fôlego.

Stargazing at Snowdonia International Dark Sky Reserve, Wales

Demetae

No sudoeste no País de Gales, nas regiões de Pembrokeshire e Carmarthenshire, os Demetae eram uma força a ser temida, e seu legado permanece até hoje no nome do condado de Dyfed, termo galês sob o qual a palavra em latim Demetae foi formada. Visitantes contemporâneos podem aproveitar os caminhos costais de St David’s e a beleza das pequenas ilhas de Pembroke, como Coldey Island e Ramsay Island.  Uma visita a Castell Henllys deve certamente ajudar na visualização do modo como os celtas viviam, já que o local contém a reconstrução de vilas e fortes celtas da Idade do Ferro.

Ordovices

Vivendo ao noroeste dos Silures, os Ordovices eram a outra maior força do País de Gales. Famosos por se oporem aos romanos, os Ordovices contaram com a ajuda do famoso guerreiro Caratacus em sua resistência contra os romanos, até serem derrotados pelas forças do governador Agricola.  Seu território incluía a maravilhosa região de Snowdonia, e é certamente um exercício fascinante imaginarmos quais estratégias de batalha eram usadas pelos Ordovices no meio das montanhas, principalmente levando em conta a beleza estonteante de locais como Cadair Idris ou Cwm Idwal, além do famoso monte Snowdon.

Deceangli

Habitando a região nordeste do País de Gales, os Deceangli possuíam números menores do que os Ordovices, e por isso foram conquistados pelos romanos sem a mesma resistência de seus vizinhos. Seus territórios incluíam Colwyn Bay e as formações rochosas conhecidas como Great Orme, famosas não apenas por sua beleza natural e apelo turístico contemporâneo, mas também por sua importância na mineração celta e romana para a fabricação de suas moedas.

Llandudno and the Great Orme

Inglaterra

Cornovii

Apesar de proeminentes na região central do País de Gales, nos territórios de Newtown e Welshpool, os Cornovii estendiam-se também pelas Midlands inglesas em Cheshire e Shropshire, locação de uma de suas principais cidades, Viroconium. Ruínas breto-romanas ainda podem ser encontradas e visitadas em Wroxeter, assim como diversos morros que abrigavam os fortes celtas dos Cornovii. Dentre eles, o mais famoso é Wrekin, a antiga capital dos Cornovii. Um dos testemunhos mais modernos desse legado breto-romano é o Templo de Diana, em Shropshire, que celebra a deusa romana da caça e da lua.

Brigantes

Considerada a maior sociedade celta da Britânia em termos de território, os Brigantes habitavam a região norte da Inglaterra que conhecemos hoje como Yorkshire, além de Lancashire e até mesmo Manchester. Em um dos episódios mais famosos da história celta britânica, a rainha dos Brigantes, Cartimandua, entregou um dos líderes da resistência celta, Caratacus, aos exércitos romanos e ao imperador Cláudio, reforçando sua aliança com o império. Com sua arquitetura e clima medieval, a cidade de York é certamente um dos lugares mais especiais do Reino Unido.

Parisi

Pouquíssimas informações precisas existem sobre a tribo que habitava a região leste de Yorkshire, vizinhos aos Brigantes, exceto por uma curiosidade: o nome Parisi provavelmente remete também à tribo celta Parisii, que habitava uma pequena parte do norte da Gália – tribo essa que originou o nome Paris, capital da França. A costa leste de Yorkshire oferece ótimas vistas das falésias britânicas aos turistas que desejam passeios ao ar livre.

Yorkshire dales

Dobunni

Localizados nas áreas conhecidas hoje como Bristol e Somerset, os Dobunni não eram conhecidos por guerrear, mas sim por seus conhecimentos em agricultura e pecuária. Alguns dos morros ocupados por eles podem ser visitados atualmente, como Burnwall, Maes Knoll e até mesmo Blaise Castle, cujas primeiras ocupações datam da era neolítica. O lugar mais popular entre os invasores romanos, no entanto, foi Aquae Sulis, a cidade hoje conhecida como Bath, onde parte das termas romanas pode ser vista até hoje.

Bath Spa

Catuvellauni

Conhecidos por terem apresentado um dos maiores líderes da resistência celta aos romanos, o guerreiro Caractacus, os Catuvellauni já batalhavam contra os romanos desde a primeira tentativa de invasão realizada por Júlio César em 54 a.C. Historiadores acreditam que o Devil’s Dyke, em Hertfordshire, pode indicar uma estratégia de batalha celta contra os romanos, que eram emboscados nas valas feitas pelos Catuvellauni. Hoje, os campos de campânulas oferecem vistas maravilhosas em Hertfordshire.

Iceni e Trinovantes

Uma das tribos celtas mais conhecidas na história, os Iceni de Norfolk e parte de Suffolk protagonizaram uma das cenas mais importantes da resistência celta aos romanos. Em 60 d.C., a rainha Boudica (Boadiceia), irada pela tentativa dos romanos de controlarem seu território após a morte de seu marido, assim como pelo abuso sofrido por suas filhas nas mãos de legionários, iniciou uma marcha de resistência que contou com a ajuda dos Trinovantes para destruir as importantes cidades romanas de Londinium e Camulodunum, hoje Londres e Colchester. A revolta de Boudica é famosa até hoje, e uma estátua dela pode ser vista em Londres.

Belgae

Apesar de não possuírem números muito expressivos, os Belgae ocupavam a região conhecida hoje como Winchester, através de sua capital Venta Belgarum. O mais curioso elemento nisso, contudo, está no fato de que os Belgae também tinham territórios no continente europeu, formando o que historiadores especulam ter sido uma confederação. O nome Belgae é tão expressivo que deu origem ao nome da Bélgica, região habitada pelos Belgae antes da ocupação dos romanos e estabelecimento da província Gallia Belgica. Por ter sido a capital anglo-saxônica da Inglaterra na Idade Média, Winchester oferece passeios incríveis para os amantes de cultura medieval.

Cantiaci

Considerados por Júlio César como uma das tribos mais civilizadas dentre os celtas da Britânia, os Cantiaci habitavam o condado de Kent, que carrega esse nome justamente por conta deles. A região, no entanto, foi o primeiro ponto no processo de conquista dos romanos da ilha. Hoje em dia, o Canterbury Roman Museum apresenta artefatos valiosos do processo de romanização dos Cantiaci e de sua capital, Durovernum Cantiacorum, hoje Canterbury. Visitantes a Kent não podem perder as torres de Reculver, construídas na Idade Média sobre a base de um forte romano construído contra as invasões saxônicas.

Dumnonnii

Woman standing on a rock, Lands End, Cornwall

Habitando as regiões da Cornualha e de Devon, a tradição celta dos Dumnonnii sobreviveu mais tempo do que as demais. Apesar de também terem sido romanizados, os Dumnonnii foram menos afetados pelas incursões saxônicas dos séculos seguintes, permitindo que mantivessem suas tradições da mesma forma que os galeses. Hoje, o Hembury Castle serve como referência para as estratégias de guerra utilizadas pelos celtas e aproveitadas pelo romanos, assim como o Castelo de Tintagel, ao qual são atribuídas diversas lendas da figura britânica mais popular de todas: o rei Artur.

Escócia

Votadini

Hadrians Wall

Habitando a região do rio Forth e do que hoje conhecemos como as cidades de Stirling e Edimburgo, os Votadini eram uma das tribos celtas mais famosas da Escócia. Sua reputação de guerreiros foi sentida na pele pelas forças romanas, que sob o imperador Adriano, acabaram sendo forçados a construir muralha que separava a Britânia romanizada das tribos bárbaras e dos pictos ao norte: Hadrian’s Wall, cujas fundações podem ser vistas até hoje. Posteriormente, os Votadini acabaram formando a sociedade conhecida como Goddodin - tribo celebrada em um poema do séc. VI onde o nome de um guerreiro chamado a Arthur é mencionado pela primeira vez. Seria esse o verdadeiro Arthur que deu origem às incontáveis lendas posteriores?

Damnonii

Ainda pouco elucidados por documentos históricos, os Damnonii ocupavam o sudoeste da Escócia atual, entre Hadrian's Wall e Antonine's Wall, a muralha erguida pelo imperador Antonino na tentativa de expandir as fronteiras romanas na Britânia. A região habitada por eles, Strathclyde, permanece um verdadeiro marco turístico para qualquer um que visite as belas paisagens escocesas ou a cidade industrial de Glasgow.

Caledonians

Things to do in the Scottish Highlands

Incialmente considerados bretões e mais recentemente analisados como pictos, os Caledonians habitavam a região das Terras Altas escocesas e a Caledonian Forest. Descrições históricas como as escritas pelo historiador romano Tácito os descrevem como guerreiros bravos de cabelos ruivos, traço característico de muitas famílias escocesas. Contando com seu terreno e árduas condições climáticas, os Caledonians jamais foram conquistados pelos romanos. Hoje, visitar as Highlands é ver o que há de mais belo na natureza escocesa.

Pictos

Os mais famosos entre as tribos da antiguidade e início da Idade Média escocesa, os pictos ainda têm sua origem repleta de mistérios. As semelhanças linguísticas e étnicas com outras tribos britônicas, no entanto, podem colocá-los dentro do conjunto que conhecemos como celtas da Britânia. O nome, que deriva do latim Picti, vem do fato dos pictos lutarem com os rostos pintados.  Sua cidade mais importante, Cait, deu origem ao que conhecemos hoje como Caitness, e especula-se que os pictos também habitavam as ilhas Orkney. 

Escrito por

Felipe Pan

Felipe Pan é escritor e pesquisador da mitologia celta do Reino Unido. É autor do livro “Alec Dini e o Vórtice do Tempo”, inspirado nas lendas celtas e arturianas.

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