Canais de Londres: oásis de sustentabilidade

Wednesday 27 October 2021

A coisa mais fácil de se encontrar em Londres são os espaços verdes. Bastam alguns minutos caminhando em qualquer direção para se deparar com um parque ou bosque, que aliás, são onde os londrinos costumam fazer sua pausa para o almoço. A cidade tem tantas árvores quanto habitantes – mais de oito milhões. 

Com suas margens arborizadas, os canais londrinos têm todo o encanto daquelas partes da cidade que são mais frequentadas por moradores do que por visitantes. Uma caminhada permite observar as rotinas dos londrinos, desde aqueles que passam zunindo de bicicleta após um dia de trabalho puxado até os que preferem sentar-se nas margens do canal com os pés pendurados na borda para conversar por horas a fio – além, é claro, dos londrinos que estabeleceram suas casas flutuantes na água e converteram este local privilegiado em sua casa. 

Um passeio por esses oásis sustentáveis permite ao visitante sentir-se parte da cidade. Talvez porque nas trilhas e nas caminhadas pelo rio, o tempo passe em um ritmo diferente. Vale a pena se deixar enredar por tamanha tranquilidade e se cercar de verde e água, de árvores (que se enchem de cores no outono) e daquela energia especial que se encontra nos recantos das grandes cidades.

 

Da elegante Little Venice à agitada King’s Cross

Regent's Canal, London. Houseboats moored on the banks. Walking paths along the banks.

O Regent's Canal tem uma rota fácil para caminhada ao longo do canal. Revelador para os não familiarizados, o caminho do canal pode ser apreciado de várias maneiras, a pé ou de caiaque. Ele foi originalmente construído para conectar o Paddington Arm, uma parte do Grand Union Canal, ao rio Tâmisa. Ele parte de Little Venice na parte mais à leste, nas docas, e tem uma extensão de quase 14 quilômetros. 

O ponto de partida da caminhada pode ser também Primrose Hill, um bairro alegre na parte norte da capital que faz fronteira com o Regent's Park, um dos parques reais históricos do centro da cidade. Um ponto importante para uma parada é a Primrose Bakery. Experimente os seus famosos cupcakes que dão fama à padaria, além do delicioso bolo de cenoura, com a mais britânica das receitas do gênero.

Depois de deixar o London Zoo para trás, siga pelo canal e vá até Camden. A Castlehaven Community Park & Horticulture Hub, uma área verde atrás de agitado mercado do bairro, é um daqueles projetos estimulantes que fazem você acreditar que um futuro verde ainda é possível. Aqui, um grupo de voluntários organiza eventos focados no estilo de vida mais sustentável, não só através do seu empenho na regeneração desta área verde (aberta ao público), mas também na oferta de oficinas dirigidos a quem quer começar a cultivar seu próprio alimento ou aprender mais sobre jardinagem. Às sextas-feiras, os voluntários vendem as hortaliças que cultivam no local.

Voltando à margem do canal, continue para o leste, deixando o movimentado bairro de Camden para trás. A próxima parada é King’s Cross, que testemunhou um dos mais ambiciosos processos de regeneração urbana e criação de áreas verdes em Londres nos últimos anos. Vinte anos atrás, King’s Cross era uma região industrial degradada. Depois dos esforços de revitalização, ele agora é um dos bairros mais animados da parte norte da cidade.

Granary Square, King's Cross. Outdoor seating along canal. People relaxing and chatting.

Antes de continuar a rota, a Granary Square, com as suas fontes lúdicas, é o local perfeito para uma parada para tomar uma bebida ou uma fazer refeição. Ali há a Vinoteca, um amplo wine bar repleto de luz natural e um cardápio amplo (com espumante inglês biodinâmico, gim tônica, coquetéis e bebidas não alcoólicas). Há também o Caravan, que rende ótimas fotos no Instagram com os seus brunches australianos e cafés especiais. Outras ideias são os excelentes tacos do Al Pastor ou a deliciosa comida indiana do conceituado Dishoom.

O Camley Street Natural Park, que fica entre King's Cross e St. Pancras, ocupa uma superfície de quase um hectare e foi recentemente reaberto após uma grande reforma. A área natural, desconhecida por muitos, foi construída em 1984 e fica sobre os restos do que foi um pátio que armazenava o carvão vindo do norte. Por isso, seu poder como símbolo de sustentabilidade é ainda mais relevante. Aqui você encontra bosques e pântanos, o habitat perfeito para dezenas de animais e plantas que não teriam onde morar em outras partes da cidade, além de um palco fantástico para tirar fotos de um lado desconhecido de Londres. 

Para aproveitar ao máximo o espaço entre a água do canal e o terreno, canaviais flutuantes foram construídos para ajudar a absorver o excesso de nutrientes da água, contribuindo para a redução do desperdício e garantindo uma água mais limpa. Para ver e curtir o canal de um ângulo diferente, uma visita ao Viewpoint é obrigatória. O espaço flutuante e isolado foi projetado por uma equipe de jovens arquitetos finlandeses e permite que você se desconecte e esqueça que está no centro da metrópole.

Perto dali, na outra margem do canal, o renomado arquiteto e paisagista britânico Dan Pearson deu uma contribuição para a área ao projetar o Handyside Gardens, um parque público conectado ao caminho que acompanha a margem do canal. Em seu projeto, Pearson, que sempre buscou reconectar as pessoas com a natureza, utilizou variedades de plantas que se destacam pela beleza e cores que mudam ao longo do ano. O projeto convida os transeuntes a se sentar e descansar em um dos muitos bancos nos jardins e ver como os elementos naturais se misturam com a paisagem urbana.

 

Do bairro Angel a Hackney, o coração moderno de Londres

The Towpath Cafe, canal-side eatery.

Passando de King’s Cross a Angel, continue a pé em meio a salgueiros-chorões e diferentes espécies de plantas que vão de ervas aromáticas a legumes, dependendo da estação. O charmoso café Towpath, às margens do canal, é um ótimo lugar para parar (o brunch é o horário mais movimentado) e experimentar um dos pratos preparados com ingredientes locais. Um excelente exemplo de sua filosofia é o refrigerante (chamado cordia) de flor de sabugueiro natural, feito com matérias-primas que crescem nas margens do próprio canal.

O café simboliza a ideia de uma comunidade que existe entre os moradores e os funcionários, o mesmo conceito que está por trás de dezenas de movimentos de bairro e comunidade, bem como organizações sem fins lucrativos, que trabalham para proteger o ecossistema e a vida natural ao longo do canal. Em Haggerston, há novamente várias ilhas flutuantes cujo objetivo é criar um corredor de biodiversidade. Os voluntários da organização sem fins lucrativos Canal River Trust foram responsáveis pela instalação dessas ilhas artificiais que também ajudam a cimentar o conceito de Londres como um National Park City. 

Os voluntários da The Wildlife Gardeners of Haggerston também começaram a criar um corredor verde que vai até a foz do rio Lea.

A caminhada no rio pode terminar na Hackney City Farm, um local excepcional no qual diferentes animais de fazenda, incluindo porcos, ovelhas, patos e galinhas coexistem com visitantes e voluntários, e onde as crianças podem aprender valores como o respeito pela natureza enquanto se divertem. O café da fazenda, Frizzante, é inspirado nas fazendas do agroturismo italianas e seu cardápio apresenta ingredientes ecológicos e pratos italianos.

Todas essas iniciativas são bons exemplos de como as decisões de sustentabilidade tomadas em escritórios e projetos espontâneos realizados nos bairros possibilitam a regeneração de áreas e a proteção da biodiversidade.

Uma outra ideia para recuperar as forças e servir como última parada na rota dos canais é a Columbia Road. Uma das ruas mais fotogênicas de Londres, ela é repleta de lojas independentes, muitas delas sustentáveis, onde você pode encontrar dezenas de objetos encantadores para comprar, incluindo velas, cerâmicas e vidros. Aos domingos, a rua recebe a feira de flores mais popular da cidade. Para coroar um dia perfeito, a melhor pedida é jantar no Morito Hackney Road, um restaurante que serve comida mediterrânea simples e de alta qualidade e em alguns dias (normalmente às terças-feiras) organiza apresentações de música ao vivo no subsolo.

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